Pessoal, bom dia. Eu estou com problemas de conexão na Internet do meu computador, mas logo o problema vai ser resolvido e eu voltarei a publicar mais contos.
Beijinhos.
sexta-feira, 27 de abril de 2018
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Será
que já é inverno?
Ele saiu do
banheiro, bem vestido e perfumado. Ela tomava o café da manhã na
copa, ele passou por ela sem ao menos olhá-la. Mesmo assim, ela
perguntou: – Não vai tomar café da manhã?
– Não, estou
atrasado. - Pegou sua maleta na banqueta que ficava perto da porta,
bateu-a atrás de si.
Ela ficou olhando
para a porta por alguns segundos e pensou: “nem me da tchau mais,
um beijo então...”
Perdeu a fome, olhou
para a xícara de café e viu parte do seu reflexo deformado, correu
para o espelho do banheiro, o perfume dele estava no ar. Olhou sua
imagem e viu rugas em volta dos olhos, um cabelo castanho que ia até
o queixo cheio de fios brancos. Toda ela tinha uma aparência cansada
e mal cuidada. – Como não percebi isso antes? – Falou para si
mesma.
Estava tão ocupada
com a limpeza da casa, as roupas que deveriam ser lavadas com cuidado
e passadas, o jardim que exigia podas constantes e as refeições que
não olhava direito para o espelho. Aquela foi a primeira vez em
muito tempo que se olhava de verdade e não gostou do que viu. Pensou
em seu marido: frio, distante e calado, nem mesmo a comida ele
elogiava.
“Será que ele tem
uma amante?” Pensou Beatriz. Aquele pensamento fez com que seu
coração se apertasse, como se houvessem pequenas mãozinhas lá
dentro. “Quando será que me tornei esta pessoa no espelho? Não me
reconheço…”
Lembrou de quando
era recém-casada e todo lugar era lugar para o amor, lembrou do
nascimento dos seus filhos, de suas infâncias, adolescências, até
que por fim o mais velho fora estudar em outra cidade, dois anos
depois foi a vez da caçula, que também optou por outra cidade e
então o vazio…o vazio que preencheu cuidando da casa com mais
esmero ainda. E assim, ela virou uma senhora, aos 54 anos. Era uma
senhora cheia de rugas, enquanto o marido não mudara muito, o cabelo
foi ficando em um lindo tom prateado, o que lhe dava mais charme,
algumas finas rugas nos cantos dos olhos e só.
– Não posso
continuar assim! – Arrancou o avental e o pisoteou até perder o
fôlego, com o rosto cheio de lágrimas, foi até o computador
pesquisar clínicas de estética, encontrou uma não muito longe,
ligou e verificou com alegria que ainda tinha horário para aquele
dia.
Tomou banho, colocou
sua melhor roupa e dirigiu-se para a clínica.
Mulheres de todas
as idades estavam na sala de espera, Beatriz sentiu um certo
desconforto enquanto esperava. Finalmente sua vez chegou, foi
esfregada, mergulhada em argila, massageada dos pés à cabeça e
exposta a aparelhos estranhos. Depois, seu cabelo recebeu um corte
mais moderno, foi tingido para um tom mais claro, suas sobrancelhas
foram feitas bem como suas unhas das mãos e dos pés e por fim, foi
maquiada. Olhou-se no espelho maravilhada, parecia muito mais jovem.
Decidiu que faria o tratamento antienvelhecimento do rosto toda
semana. Passara o dia todo na clínica, já era noite quando saiu.
Quando chegou em
casa, seu marido já havia chegado e mal ela entrou pela porta, ele
perguntou pelo jantar.
– Peça uma pizza
– Disse ela mal olhando para ele.
Ao vê-la, ele ficou
boquiaberto, sem entender porque a casa estava bagunçada, sua mulher
totalmente diferente, ele coçou a cabeça e tudo que ele conseguiu
dizer foi:
– Onde será que
ela guarda os panfletos das pizzarias? – Não ousaria perguntar
para ela, ela estava intimidadora.
Enquanto isso,
Beatriz foi olhar-se no espelho, ficou um bom tempo contemplando-se.
Agora, ela sorria.
sexta-feira, 30 de março de 2018
Não estou aqui
Era noite e estava tudo silencioso, exceto pelo pinga-pinga da pia da cozinha. Isso a irritava, precisava chamar um encanador para resolver isso! Mas tinha tantas coisas para fazer...a porta do banheiro que não fechava direito sabe-se lá porque, o titulo de eleitor que precisava achar, as gavetas do guarda-roupa que mal fechavam por causa das roupas amontoadas, as ligações tinha que fazer...sobretudo para sua mãe, era a pior parte. Ela sabia que se telefonasse, ela lhe perguntaria se já tinha conseguido aquela promoção e discorreria sobre ela ter que ser mais pró-ativa, mais firme, mais tudo! Sem contar a eterna pergunta: -Você já conheceu alguém? olhe que você não está ficando mais jovem e precisa se esforçar mais!
Que tipo de esforço era preciso fazer para conhecer alguém? Andar com um decote que mostre o sutiã? Sorrir para todos os homens na rua? Ir em um bar sozinha e esperar que algum homem se aproxime? Provavelmente ele perguntaria quanto é...também não gostava de sites de relacionamento nos quais os homens queriam sexo virtual. Achava degradante.
Levantou-se e foi até a janela, alguns carros passavam em direções opostas, aquilo não lhe fazia sentido: andar de um lado para o outro, para quê? Ela achava que não fazia parte deste mundo. As únicas coisas que lhe interessavam eram filmes e livros de ficção científica, eles a transportavam para fora deste mundo.
Saiu da janela e foi em direção ao quarto, pensou que tudo poderia ficar pra depois. Deitou-se e desejou que Morfeu a levasse para um mundo fantástico, onde ela poderia realmente existir.
Que tipo de esforço era preciso fazer para conhecer alguém? Andar com um decote que mostre o sutiã? Sorrir para todos os homens na rua? Ir em um bar sozinha e esperar que algum homem se aproxime? Provavelmente ele perguntaria quanto é...também não gostava de sites de relacionamento nos quais os homens queriam sexo virtual. Achava degradante.
Levantou-se e foi até a janela, alguns carros passavam em direções opostas, aquilo não lhe fazia sentido: andar de um lado para o outro, para quê? Ela achava que não fazia parte deste mundo. As únicas coisas que lhe interessavam eram filmes e livros de ficção científica, eles a transportavam para fora deste mundo.
Saiu da janela e foi em direção ao quarto, pensou que tudo poderia ficar pra depois. Deitou-se e desejou que Morfeu a levasse para um mundo fantástico, onde ela poderia realmente existir.
sábado, 10 de março de 2018
St. Tropez
Era uma tarde
ensolarada de primavera, no jardim podia-se ver os primeiros botões
de rosas amarelas abrindo-se, as orquídeas timidamente começavam a
crescer amarradas em uma pequena árvore, onde havia sombra para
elas. Os cravos vermelhos misturados com os botões de rosas tinham
uma simetria incomum.
Fernanda, sentada
na varanda em sua velha cadeira de balanço, ouvia os passarinhos
cantarem, sentiu inveja deles por poderem voar para onde quisessem.
Incomodada com este pensamento, resolveu pegar um livro para
distrair-se. Entrou na sala, escolheu um livro antigo que ela não
abria há muitos anos. Ao abrir o livro, deparou-se com uma rosa
vermelha seca e uma carta.
-Há quantos anos
será que isto está aqui? Perguntou-se.
De repente, tudo
começou a voltar: em um verão há muitos anos, quando ainda era
muito jovem foi à França para fazer um curso em História da Arte.
Tinha aquele dia livre livre e resolveu ir à St. Tropez. Que lugar
lindo! Estendida na areia, seu corpo envolvido pelo sol como um
abraço, uma leve brisa marítima brincava com seu cabelos. Ela
olhava distraidamente para o mar, vendo o vai e vem das ondas.
Sua estadia não
demoraria a acabar, três meses passam muito rápido e ela queria
aproveitar cada momento. Olhou para o lado e viu um rapaz a
observá-la, tímida como sempre fora, corou. O rapaz, ao contrário
da maioria, encorajou-se com seu rubor, levantou-se e foi em sua
direção. Meio atônita, meio surpresa, não sabia o que faria ou
falaria. Ele sentou-se ao seu lado sem nem pedir permissão.
-Oi, meu nome é
Jacques. Sua voz era quente e rouca. - estive te observando, é um
pecado uma moça como você estar aqui sozinha, qual seu nome?
- Fe…Fernanda
- Nome diferente,
você não é daqui, não é?
-Não. Fernanda
conseguiu balbuciar.
-De onde você é?
-Bra...Brasil.
-Deve ser um lugar
fantástico, quero ir para o Rio de Janeiro um dia.
Fernanda começou a
relaxar, algo no tom da voz dele deixou-a mais à vontade. Animou-se
para falar:
-Estou aqui por três
meses fazendo um curso de História da Arte.
-Ahh...então você
é artista?
-Na verdade não,
estudoArtes no meu país e estou me formando para ser professora de
História da Arte. E você?
-Eu? Eu moro aqui e
estudo a natureza.
-Você faz Biologia
ou algo assim?
-Não. Eu venho à
praia, admiro o sol, o mar, as paisagens e tudo que a vida tem para
me oferecer
Fernanda admirou-se
com seu jeito despojado e sensual. Nunca tinha conhecido ninguém
como ele, bem, na verdade, não conhecia muitas pessoas, tinha
pouquíssimos amigos e nunca namorara, mesmo aos 22 anos.
A conversa
desenrolou-se facilmente depois disso e quando o sol estava se pondo,
ele a convidou para jantar e mostrar a cidade do ponto de vista de um
genuíno francês. Ela passava a maior parte do tempo enterrada em
livros e achou maravilhoso poder passear.
Começaram a se
encontrar todos os dias e Fernanda estava apaixonada, nunca tinha
sentido isso, mas sabia que era paixão. E pouco tempo, começaram um
romance. Ela se sentia nas nuvens!
Em uma noite, após
um jantar romântico em um pequeno restaurante iluminado apenas por
velas, ele convidou-a para ir ao seu quarto e aconteceu, tinha
imaginado sua primeira vez tantas vezes, mas jamais daquele jeito.
Foi incrível! Naquela noite, ao dormir abraçado ao corpo másculo
de Jacques, Fernanda pensou estar em um sonho.
Na manha seguinte,
quando acordou, ele não estava. Ela achou que ele tinha ido buscar o
café da manhã e voltou a dormir. Quando acordou novamente ele ainda
não estava lá. Percebeu uma rosa vermelha e levantou-se para ver,
embaixo, havia uma carta. Estava escrito que ela era uma garota
fantástica, mas que não poderia ficar com ela, iria para Bruxelas,
pois seu pai tinha grandes planos para ele.
Fernanda desabou no
chão e chorou como nunca, seu coração estava despedaçado e sentiu
uma dor imensa. Passado o primeiro choque, Fernanda jurou para si que
nunca mais deixaria ninguém enganá-la novamente.
Findo o curso,
voltou para o Brasil, terminou seus estudos e conseguiu um cargo de
professora em uma universidade. Concentrava-se cem por cento em seu
trabalho e pouco tempo lhe sobrava para pensar em namoro. Se
casar-se, aconteceria, mas ela não fazia nenhum esforço nem
questão, tamanha fora sua decepção e tristeza com Jacques.
Hoje, aposentada,
em sua casa, com um livro na mão e a carta na outra, recordou-se de
tudo e arrependeu-se de carregar aquela mágoa por tantos anos. Podia
agora ter um marido, filhos e netos…
O fato é que
quando nova, fora muito guiada pelos pais e não conhecia nada da
vida, havia sido criada em um ambiente onde só os estudos
importavam.
-Pois bem! Disse
para si quase gritando. De que me vale todo esse conhecimento agora??
O livro que
segurava na mão, A Filha de Mistral,
tinha uma história parecida com a que vivera na França, mas a
heroína saiu-se melhor que ela, porque em histórias de ficção
sempre há um príncipe encantado para curarem suas dores.
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